A Arquitetura Brasileira

Arquitetura Brasileira
Por Cêça de Guimaraens

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A produção arquitetônica brasileira desenvolveu-se sob um processo cultural complexo, e os arquitetos, imigrantes e brasileiros, sempre contribuíram para a ruptura das formas e estilos consagrados. A arquitetura foi expressão de progresso e instrumento para a modernização durante os períodos Colonial, Imperial e Republicano. Contou com o apoio dos governantes - a partir de 1808, com o rei de Portugal, D. João VI, prosseguindo com os imperadores D. Pedro I e D. Pedro II e, mais tarde, desde o ditador Getúlio Vargas até o presidente Juscelino Kubitschek. Mereceu também o apoio de intelectuais e artistas que atuaram na Semana de Arte Moderna, em 1922, no Salão de 31, no Cinema Novo, em 1960, e na resistência à ditadura militar, nas décadas de 70 e 80.
As condições e as principais origens da modernidade na configuração do espaço físico-político brasileiro foram determinadas pela importância do papel da ocupação holandesa na formação das cidades do Recife e de São Luís, no século XVIII, e pela consolidação, no século XIX, das propostas da Missão Francesa, na cidade do Rio de Janeiro, com as "sagas" de Grandjean de Montigny e de Pereira Passos, nos primórdios do século XX.
A criação da Academia Imperial de Belas Artes e o estabelecimento do ensino regular de arquitetura propiciaram, em meados do século XIX, a renovação do barroco - transformado em signo rococó da fase colonial de raiz lusa - e a implantação do formalismo oficial, com o neoclassicismo.

Em 1904, a inauguração da avenida Central, atual Rio Branco, no Rio de Janeiro, institui a técnica da produção industrializada por meio do ecletismo. As fachadas adornadas de elementos pré-fabricados traduzem o imaginário feérico dos imigrantes e resultam em híbridos e polifônicos estilos típicos da fase republicana inicial. Denominados também historicistas e pinturescos de feição neoclassicizante, renascentista e gótica, com inspiração mourisca, anglo-saxônica, italiana e francesa, os edifícios ecléticos exprimem a internacionalização da economia e do comércio no Brasil.

A arquitetura do século XX é inaugurada em São Paulo, em 1902, com a Vila Penteado, de Carlos Eckman, e com a construção da Estação da Estrada de Ferro Sorocabana, em Mairinque, projetada em 1907 por Victor Dubugras. O modern style que Eckman e Dubugras ostentaram nessas e em outras obras apresentou-se sob dupla faceta: o art nouveau e o art déco. Essas tendências do fragmentário e descontínuo "estilo moderno" inicial, ou protomodernismo, multiplicaram as contradições da nação neófita ao contrapor a técnica artesanal da criatividade cristalizada à racionalidade industrial da produção em série.

Simultaneamente, o estilo neocolonial, introduzido pelo arquiteto português Ricardo Severo, expressava as "constantes de sensibilidade" luso-ibéricas. Nesse nativismo predominavam as formas do mission style californiano e do marajoara, enquadrado na condição de vertente do art déco. O período de transição, prolongado até a Segunda Guerra Mundial, destaca a féerie de cenários e estilos improvisados, mas algumas experiências de transformações estilísticas excepcionais foram construídas, no Rio de Janeiro, por empreiteiros italianos, ingleses e alemães, a partir das concepções dos arquitetos Virzi, Morales de Los Rios, Heitor de Melo, Archimedes Memória, Francisque Couchet e Gastão Bahiana.

A hegemonia cultural e política do eixo Rio-São Paulo provocou, nessas cidades, empreendimentos progressistas de renovação da fisionomia urbana e regional, que se expandiram para as demais regiões. A contínua modernidade urbanística e, conseqüentemente, arquitetônica, revela-se na transferência das capitais do Piauí (para Teresina, em 1852) e de Sergipe (para Aracaju, em 1855); na criação das cidades de Belo Horizonte (1894) e Goiânia (1933) e nos planos pilotos de João Pessoa (1932) e Salvador (1945), capitais dos estados de Minas Gerais, Goiás, Paraíba e Bahia, respectivamente.

Em 1926, o urbanismo "renovador" reprisa a Paris iluminista de Haussman no projeto do francês Alfred Agache para a remodelação e embelezamento da cidade do Rio de Janeiro. Convidado pelo governo, o urbanista estabelece na América portuguesa o padrão clássico das capitais modernas européias e altera radicalmente a morfologia e tipologia das fases anteriores.
O fenômeno movimento modernista na arquitetura brasileira teve sua "fase heróica" entre 1930-45. Neste período, alguns arquitetos de renome, ao atenderem às necessidades de expansão e importação/exportação de uma "arquitetura de renovação", colocaram o País entre os primeiros no ranking internacional da indústria da construção civil e difundiram a homogeneização do espetáculo urbano caracteristicamente cambiante e contingente.
As transformações da arquitetura brasileira foram determinadas pelo arquiteto russo Gregori Warchavchik - graduado em Milão e contratado pelo grupo Simonsen para trabalhar na cidade de São Paulo, no final da década de 20. O marco inicial destas transformações foi o projeto e a construção da Casa Modernista, seguido pela publicação do texto-manifesto Futurismo, a condição de representante do Congresso Internacional de Arquitetura Moderna (CIAM) e as classes de arquitetura na Escola Nacional de Belas Artes, ministradas sob a direção do arquiteto Lucio Costa, com o qual estabeleceu escritório no Rio de Janeiro, entre os anos 30 e 32.

A visita do arquiteto Le Corbusier, em 1929, fortalece os arquitetos vanguardistas que atuavam em São Paulo e no Rio de Janeiro, difundindo as idéias dos precursores modernistas Walter Gropius, Mies Van der Rohe e Frank Lloyd Wrigth. Porém, apenas em 1936 a proposta de Le Corbusier, convidado para resolver o impasse criado no concurso para a sede do Ministério da Educação e Saúde, no Rio de Janeiro, define a aceitação "oficial" do modernismo, com a renovação da técnica e expressão arquitetônicas brasileiras.
"O grupo do prédio do Ministério", composto por Affonso Eduardo Reidy, Carlos Leão, Ernani Vasconcelos, Jorge Moreira, Lucio Costa e Oscar Niemeyer, consolida o "período heróico" e propicia o estabelecimento da liderança carioca de Costa e Niemeyer, que realizam, em dupla e individualmente, um roteiro entremeado de obras-primas. Desde 1939, com o Pavilhão do Brasil para a Feira Internacional de Nova York, até o concurso internacional e a construção do plano piloto de Brasília, a nova capital federal, em 1956-60, incluindo o conjunto da Pampulha, de Niemeyer (Belo Horizonte, Minas Gerais), o Hotel do Park São Clemente (Nova Friburgo, Rio de Janeiro) e o conjunto residencial do Parque Guinle (Rio de Janeiro), de Costa, confirmam-se as premissas corbusianas e o diálogo entre o racionalismo e o organicismo, que fundamentaram a arquitetura brasileira contemporânea.

A atuação de Lucio Costa no Serviço do Patrimônio, de 1937 a 1960, é simultânea à sua condição de mentor do prestígio internacional da arquitetura brasileira. Essa etapa se caracteriza no Rio de Janeiro pelo atendimento às encomendas do setor privado por Marcelo e Milton Roberto e Henrique Mindlin, enquanto as do setor público dividem os trabalhos de Oscar Niemeyer, Affonso Eduardo Reidy e Carmen Portinho, aos quais se sucedem Francisco Bolonha e Sérgio Bernardes. Em São Paulo, Flávio de Carvalho e outros herdeiros da tradição moderna, como Vital Brasil, Rino Levi, Oswaldo Bratke e Vilanova Artigas, realizam obras significativas, entre elas o conjunto da alameda Lorena, o Edifício Esther, a Residência do Arquiteto, o Hospital do Câncer e a Faculdade de Arquitetura e Urbanismo. No Recife, destacam-se Luís Nunes e Burle Marx, na década de 30, e Delfim Amorim, em 1940-50. Outras capitais, como Salvador por exemplo, tiveram em Diógenes Rebouças e José Bina Fonyat, legítimos seguidores da matriz formalista de base corbusiana.

À maneira de Warchavchik, a arquiteta italiana Lina Bo Bardi, de formação milanesa, demarca outra tendência na transição de estilos, desde sua chegada ao Brasil em 1947. Entre 1950-80, na Bahia e em São Paulo, Bo Bardi explorou a multiplicidade de soluções estéticas da arquitetura brasileira utilizando as fontes vernáculas e racionalistas como referências para seus projetos de espaços culturais e de lazer. O Museu de Arte Moderna de São Paulo, o Solar do Unhão, em Salvador, e o Sesc-Pompéia, em São Paulo, demonstram a evolução da complexidade e singularidade da arquitetura brasileira.

A construção de Brasília configura a superação das limitações culturais e históricas e, no campo da arquitetura, privilegia a quebra da pretensa unidade estética. As reafirmações das identidades locais determinam o início da fase pós-Brasília, quando se evidenciam as características regionais e as diferenças de materiais e técnicas construtivas. Além disso, a constatação do conflito provocado com o adensamento dos bairros centrais das cidades estabeleceu a prioridade para a alteração das escalas dos projetos de planejamento e desenho urbano. Paralelamente, a despreocupação com os modelos modernistas e o cuidado com o habitat ampliaram o campo de trabalho dos arquitetos e possibilitaram o desenvolvimento das tendências arquitetônicas pós-modernistas, tecnológicas e vernaculares. O uso do concreto armado concorre com as estruturas metálicas; o tijolo aparente e as cerâmicas imprimem as cores tropicais na arquitetura.

Em 1969, Lucio Costa projeta o plano piloto para a Baixada de Jacarepaguá e Barra da Tijuca, onde busca atualizar as diretrizes do urbanismo racionalista. Ao mesmo tempo, em várias cidades brasileiras, desde o sul pratense até o norte amazônico, incluindo Minas Gerais e Brasília, desenvolvem-se arquiteturas de tendências variadas, com a reafirmação do international style e as variações pós-modernas. Nesse período revelam-se tanto os continuadores da tradição heróica, como Joaquim Guedes, Paulo Mendes da Rocha, Ruy Ohtake, Filgueiras Lima, Paulo Casé e Acácio Gil Borsoi, quanto a dos revisores do movimento modernista, como Luiz Paulo Conde, Severiano Mário Porto, Francisco de Assis Reis e Jaime Lerner e, finalmente, Sérgio Magalhães, Carlos Bratke, Hector Viglecca e João Castro Filho, além de Éolo Maia e seus parceiros, que configuram a novíssima geração mineira, caracterizada por constante exercício de revisão crítica a partir da absorção de valores universalistas e regionais.

Texto retirado do site de "Arquitetura e Urbanismo"

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